18/07/16

ORAÇÃO DE FÁTIMA; o INFERNO e o PURGATÓRIO (I)

Em Portugal, alguns tradicionais católicos (... ou, tradicionais portugueses, tanto dá) procuram conclusão a respeito da autenticidade de uma das duas versões da oração "ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno ... etc...". As versões em questão:

versão a) "Ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno e aliviai as almas do purgatório especialmente as mais abandonadas."

versão b) "Ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno, e levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem."

Neste contexto, chegou-me um belíssimo texto, com a defesa da versão a (como ainda não tenho certezas necessárias a respeito do assunto, abstenho-me de tomar posição definitiva).

Em diante seguirei o texto enviado.

Uma das exposições deste defensor da versão a é inquestionável, e devemos já assumi-la: a versão a está em conformidade com a doutrina da Igreja, e digo eu que, por isso, e apenas por si não haverá qualquer dano em rezá-la, antes pelo contrário; é também verdade que as doutrinas contidas, tanto a do Inferno como a do Purgatório, estão hoje muito ausentes das vidas dos católicos (ou são quase ignoradas, chegando até a ser rejeitadas), ou andam muito deturpadas, e faz sentido a insistência na sua reposição.

Mostra-nos texto um breve historial, de suma importância, esclarecendo: a versão a "...rezou(se) no fim dos mistérios do terço durante dezenas de anos desde as Aparições de Fátima em 1917, e de modo verdadeiramente insólito, por volta de 1960, sofreu uma modificação verdadeiramente absurda ...". Explica depois que a versão a "... foi assim divulgada pelo Dr. Manuel Nunes Formigão, doutorado em Teologia e Direito Canónico pela Universidade Gregoriana, após o inquérito realizado em 17 de Setembro de 1917, aos três videntes. Esse inquérito consta do livro do mesmo Dr. Formigão sob o pseudónimo Visconde de Montelo - As Grandes Maravilhas de Fátima, Edição da União Gráfica, datado de 1927, na pág. 77, conforme o documento anexo." Contudo, como veremos, o mesmo Dr. Formigão, em Abril de 1955 confessa ter feito uma reformulação, ou alteração: "... declara num Inquérito Oficial que a fórmula inicial (...) era diferente."

Bilhete de Identidade do Dr. Formigão
Confiando nas palavras do Dr. Formigão:
- O Dr. Formigão difundiu a versão a, depois do inquérito de Setembro de 1917;
- Em 1955, o Dr. Formigão revela que a versão difundida era uma reformulação sua daquilo que tinha ouvido à pastorinha Lúcia;
- Em suma: a versão a é uma reformulação do Dr. Formigão, e foi a única divulgada desde 1917, até 1955 (38 anos).

Nesta confissão do Dr. Formigão revela-nos a versão original, que tinha ouvido em 1917: "Ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno, e levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem". Ora, esta é a versão b, com a diferença da palavra "alminhas", coisa que também difere da versão a.

O autor defensor da versão a explica o significado que em Portugal damos a "alminhas", transcrevo: "Consultem os melhores dicionários e verão que "alminhas" em português significam os pequenos quadros em que se vêem as almas a padecer no Purgatório. Uma delas bem interessante até, no início do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís da parte do Porto, para lembrar e sufragar as centenas de pessoas mortas nos alçapões, destinados aos franceses, durante as invasões napoleónicas, mas onde desgraçadamente caíram grande número de portugueses". Belíssima ilustração dos tempos idos, à qual quero juntar outra explicação também antiga, embora pouco erudita: aqui, no interior de Portugal, onde as décadas e os séculos correram muito devagar, as caixas das esmolas para as Missas das almas tem escrito "alminhas". Agora limito-me a construir frases que traduzam os usos quanto à palavra em questão, os quais presenciei, ou recebi, em criança, e adolescência, juventude, tanto dos meus avós como outras pessoas antigas:
- "O meu Manuel era tão bom homem; uma alminha santa..."
- "Rezo todos os dias pela alminha do meu pai."
Por "alminhas" também se entende o pequeno monumento religioso, com uma cruz pelo menos, que assinala o local onde algum cristão morreu, e que ao passar por ele rezam as pessoas a essa alma, ou almas (aqui no interior, pelos caminhos antigos, há vários casos destes, e são algumas destas "alminhas" muito antigas, com séculos, e sempre rezamos algo ao passarmos em frente). Mas, não convém ficar por aqui, pois ecoa-me cá por dentro a voz de certo amigo que talvez me tenha dito um dia "isso de colocar "alminhas" na oração de Fátima é diabólico, porque as alminhas não são as almas, e são objectos"...! Se o meu testemunho serve de pouco, pois não sou anterior a 1955, rematemos este ponto com documentação:
1 - "Alminhas boas, que andam entre nós!
Que do dinheiro são sempre um cadoz.
Eu rio, quando vejo estes beatos,
Sanguessuga, e esponjas de contratos;
De olhos meios fechados a falarem,
Até os seus interesses ultimarem;
Mas depois dos ajustes serem feitos,
Abrem os olhos tortos, ou direitos,
Ora pondo-os no chão, ora no Céu,
Que este é da hipocrisia o grande véu;
Té que lhes chega às vezes neste estudo
Revez, em que o diabo leva tudo."
(José Daniel Rodrigues da Costa, Portugal enfermo de vícios e abusos de ambos os seros, Vol. I, pág. 30. Lisboa, 1819)
2 - "Alminhas do purgatório,
Que estais na beira do rio,
Virai-vos da outra banda
etc..."
(Francisco Adolfo Varnhagen - Visconde de Porto Seguro, Florilégios da poesia brazileira..., Vol. I, pág. 589. Lisboa, 1850)
3 - "...aí temos tantas alminhas perdidas (e mais perdidas do que aquelas, às quais ele aplica este epiteto!) sem os meios da salvação, que a Igreja, em tão penosas, e tristes circunstâncias lhes deixava!" (Fr. Francisco Xavier Gomes de Sepulveda, exame crítico de um folheto do padre Fr. Sebastião de Santa Clara ... pág. 39. Lisboa, 1837)
4 - "Vejam lá os nosso Leitores como estas duas alminhas, o Correio e o Correspondente, arrancam à má língua! e com que sem cerimónia ! bem se vê que andam cá de largo, e por onde a gente se não confessa: que se não fosse isso, outro galo lhes cantára". (Periódico Mensal - o padre amaro, ou sovéla, política, histórica, e literária, dedicado a todos os portugueses de ambos os mundos. Tomo II, pág. 347. Londres, 1820)
5 - "- Olha que mulher, que amizade tinha ao caixeiro, que nem manda procurar-lhe o corpo, para lhe fazer sufrágios pela sua alminha, que Deus tenha na sua divina presença, Padre nosso que estais no céus..." (Camilo Castelo-Branco, mistérios de Lisboa, Vol. I, pág. 242. Porto, 1861)
6 - "Lá vai aquela alminha e vai gemendo!" (Guilherme Augusto de Santa Rita, Gomes Leal, o poema dum morto, pág. 183. ano 1897)
7 - "O que V. R. quis foi salvar esta alminha: foi o amor, não o ódio, quem lhe guiou a pena." (Carta de Alexandre Herculano, datada de 8 de Outubro de 1850)
8 - "Aqui estou já com o peso às costas: até agora uma pobre alminha me custava tanto livrar dos perigos que a cercam, para a entregar ao meu Criador, que hei de fazer daqui em diante, tendo de lhe dar conta de um tão grande número delas?" (transcição de uma carta de D. Fr. Caetano Brandão, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, no primeiro tomo de "Memórias" - Braga, 1867)
9 - "Lá do servo nada sei; sei do amo, em que mil bens observo.
Detestam-no; podera! a causa está bem clara;
é porque ele pespaga a cada um na cara,
o que tem de dizer-lhe. A bemaventurança
é que enche de fel aquela alminha mansa."
(Feliciano de Castilho, Tartufo. Lisboa, 1870)

"Alminhas", entre várias coisas, é uma forma carinhosa, sentida, dedicada, de tratar as almas, tanto dos que partiram como as dos que estão. Na literatura apresentada, algum leitor terá confundido "alminhas" com "pequenos quadros em que se vêm as almas a padecer no Purgatório", tal como no-lo apresentam alguns eruditos dicionários!? Todos sabemos a reposta: não! claro que nunca nenhum leitor português fez tal confusão!

Na versão b, tanto adiantaria dizer "almas" como "alminhas"? Uma e outra não confundem, acabam por significar o mesmo, contudo esta forma dos portugueses usarem o diminutivo acaba por valorizar, emprestando um carácter mais amável, profundo, dedicado, e até mimoso (lembra esse "neologismo" empregue por Jesus ao chamar o Pai ("Ab") por Paizinho ("Ába" אבא).

(a continuar)

3 comentários:

Anónimo disse...

Donde puedo encontrar la confesion que hizo el Padre Formigao en 1955 diciendo que reformulo la oracion?
Muchas Gracias

Anónimo disse...

Poderia me dizer cual e o escrito do Padre Formigao onde en 1955 confesa o cambio que ele fiz na oracao? disculpe meu mal portugues .

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Caro "anónimo",

este artigo foi feito com base naquele texto que contém a defesa da "versão a", e do qual não duvidamos da honestidade das fontes. Ou seja, o que me pergunta vem já afirmado nesse texto.

Na segunda parte deste nosso artigo poderemos talvez fornecer os dados que nos pede... caso esta segunda parte saia (não prometemos porque estão outras coisas a considerar).

Volte sempre.

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